
Antes que existisse o ar, a terra ou mesmo o céu, havia somente água,
turbulenta e borbulhante, da qual surgiu Rá, o primeiro deus. Rá
transformou-se em um novo elemento no cosmo: o sol. Mas a carência de
outra vida logo lhe pesou e, em comunhão com a sua própria sombra, gerou
uma filha, Tefnut. Ela também era um novo elemento: a umidade.
E
Shu, o outro filho de Rá, tornou-se o ar. Por sua vez, eles também
tiveram seus próprios descendentes, Geb e Nut (a terra e o céu). Logo
foi estabelecida toda uma ordem cósmica. Contudo, essa ordem veio
acompanhada de desafios não previstos.
Assim, Rá viu-se forçado a
travar batalhas diárias com a serpente Apep pelo controle da atmosfera.
Contando com a ajuda da esposa e filha Bast (deusa dos gatos e da
fertilidade), Rá lograva êxito na maioria das vezes. Mas nos dias em que
Apep vencia, havia sempre tempestades e mau tempo.
Esse era tão
somente o começo daquilo que Rá teria de enfrentar. Em certa ocasião, as
frustrações de dominar uma população humana que se dava a queixas e
rebeliões levaram Rá, em um acesso de ira, a arrancar um dos seus olhos e
atirá-lo à terra. O olho transformou na deusa da vingança, chamada
Sekhmet, uma força tão destrutiva contra a humanidade que Rá, cheio de
remorso, teve de chamá-la de volta usando um estratagema. Rá ordenou aos
seus vassalos que produzissem milhares de barris de cerveja. A cerveja
seria misturada com suco de romã para parecer sangue das vítimas humanas
de Sekhmet, sendo usada para inundar o campo ao redor de sua morada
terrena. O intento teve êxito. Quando Sekhmet emergiu novamente para
terminar de dizimar a humanidade, ela viu seu reflexo no lago vermelho
repulsivo, enamorou-se dele e bebeu a mistura, caindo no sono,
permanecendo inofensiva. O resultado foi tão bom que posteriormente ela
desposou Ptah, o deus absoluto da criação. E mais tarde, ironicamente,
ela se transformou em Hator, deusa do amor e da celebração.
A
responsabilidade por todo o cosmo começava a minar a vitalidade de Rá.
Como envelhecia, Rá buscou um substituto para suas obrigações de zelar
pela terra. O substituto viria a ser seu neto, Osíris.
Osíris,
assim como Ísis, Set e Neftis, veio ao mundo em decorrência da união de
Geb e Nut. Contudo, quando Rá passou o domínio do mundo às mãos de
Osíris, ocorreu a primeira rivalidade entre irmãos na história do cosmo.
E que rivalidade!
Osíris havia sido um ditador benevolente — sob
seu comando os egípcios tornaram-se um povo civilizado. Mas seu irmão
Set (o deus do caos e das tempestades) estava enciumado pelo presente
concedido a Osíris e o matou. Ele construiu um baú primoroso, ofereceu
uma festa e disse aos seus filhos que aquele que coubesse no baú poderia
tê-lo para si. Mas ele havia construído o belo baú tendo em mente
apenas Osíris. Quando Osíris entrou no baú, Set o selou e seus comparsas
o deitaram no Nilo, na esperança de que nunca mais tornariam a vê-lo.
Assim,
Osíris fora o primeiro deus da história a morrer e tornou-se o primeiro
deus do mundo inferior. Quando Neftis contou à sua irmã Ísis sobre o
assassínio, Ísis mergulhou em profunda tristeza, pois Osíris era não só
seu marido como também seu irmão. Ela encontrou o corpo e conseguiu
ressuscitar Osíris e juntos tiveram um filho chamado Hórus. Mas Set não
tardou em descobrir isso e, colérico, retalhou Osíris em 14 pedaços,
espalhando as partes pelo Egito de modo que nem Ísis poderia juntá-los.
Anúbis, o inventor do embalsamamento e filho de Osíris, realizou o
funeral na grande pirâmide.
Set passara a ser então o senhor do
mundo e em virtude de sua inclinação ao caos e à violência, parecia que
todas as boas obras de Osíris seriam desfeitas em breve. Comentava-se
até mesmo que Set tramava usurpar o lugar de seu pai Rá.
Em
conseqüência disso, Rá e Hórus convocaram um grande exército para tomar o
poderio de Set. Eles convocaram Tot, deus da sabedoria e da verdade,
que transformou Hórus em um disco solar com um calor tão intenso que
confundiu as tropas de Set, que se destruíram mutuamente. Mas o próprio
Set não podia ser encontrado em lugar nenhum. Ele escondera-se a uma
grande distância, onde estaria livre para criar outra força para
derrotar Rá e Hórus.
Mas não chegara a realizar seu intento. E,
com a posterior derrota, Hórus retalhou Set do mesmo modo como havia
sido feito com seu pai. Assim, Hórus passou a comandar o mundo e abriu o
precedente para os faraós que o sucederam.
