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sexta-feira, 14 de março de 2014
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Prece de Exu
Sou Exu, Senhor. Pai, permite que assim te chame, pois, na realidade, Tu o és, como és meu
criador. Formaste-me da poeira ástrica, mas como tudo que provém de Ti,
sou real e eterno.
Permite Senhor, que eu possa servir-Te nas mais humildes e
desprezíveis tarefas criadas pelos teus humanos filhos. Os homens me
tratam de anjo decaído, de povo traidor, de rei das trevas, de génio do
mal e de tudo o mais em que encontram
palavras para exprimir o seu desprezo por mim; no entanto, nem
suspeitam que nada mais sou do que o reflexo deles mesmos. Não reclamo,
não me queixo porque esta é a Tua Vontade.
Sou escorraçado, sou condenado a habitar as profundezas escuras da terra e trafegar pelas sendas tortuosas da provação.
Sou invocado pela inconsciência dos homens a prejudicar o seu
semelhante. Sou usado como instrumento para aniquilar aqueles que são
odiados, movido pela covardia e maldade humanas sem contudo poder
negar-me ou recorrer.
Pelo pensamento dos inconscientes, sou arrastado à exercer a
descrença, a confusão e a ignomínia, pois esta é a condição que Tu me
impuseste. Não reclamo, Senhor, mas fico triste por ver os teus filhos
que criaste à Tua imagem e semelhança, serem envolvidos pelo turbilhão
de iniquidades que eles mesmos criam e, eu, por Tua lei inflexível,
delas tenho que participar.
No entanto, Senhor, na minha infinita pequenez e miséria, como me sinto grande e feliz quando encontro nalgum coração, um oásis de amor e sou solicitado a ajudar na prestação de uma caridade.
No entanto, Senhor, na minha infinita pequenez e miséria, como me sinto grande e feliz quando encontro nalgum coração, um oásis de amor e sou solicitado a ajudar na prestação de uma caridade.
Aceito, sem queixumes, Senhor, a lei que, na Tua infinita sabedoria e
justiça, me impuseste, a de executor das consciências, mas lamento e
sofro mais porque os homens até hoje, não conseguiram compreender-me.
Peço-Te, Oh, Pai infinito que lhes perdoe.
Peço-Te, não por mim, pois sei que tenho que completar o ciclo da minha provação, mas por eles, os teus humanos filhos.
Perdoa-os, e torna-os bons, porque somente através da bondade do seu
coração, poderei sentir a vibração do Teu amor e a graça do Teu perdão.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
A lenda do peixinho vermelho
***
No centro de formoso jardim, havia um
grande lago, adornado de ladrilhos azul- turquesa.
Alimentado por diminuto canal de pedra, escoava suas águas, do outro lado, através de grade muito estreita.
Nesse reduto acolhedor, vivia toda uma comunidade de peixes, a se refestelarem, nédios e satisfeitos, em complicadas locas, frescas e sombrias. Elegeram um dos concidadãos de barbatanas para os encargos de rei, e ali viviam, plenamente despreocupados, entre a gula e a preguiça.
Junto deles, porém, havia um peixinho vermelho, menosprezado de todos.
Não conseguia pescar a mais leve larva, nem refugiar-se nos nichos barrentos. Os outros, vorazes e gordalhudos, arrebatavam para si todas as formas larvárias e ocupavam, displicentes, todos os lugares consagrados ao descanso.
O peixinho vermelho que nadasse e sofresse.
Por isso mesmo era visto, em correria constante, perseguido pela canícula ou atormentado de fome.
Não encontrando pouso no vastíssimo domicílio, o pobrezinho não dispunha de tempo para muito lazer e começou a estudar com bastante interesse.
Fez o inventário de todos os ladrilhos que enfeitavam as bordas do poço, arrolou todos os buracos nele existentes e sabia, com precisão, onde se reuniria maior massa de lama por ocasião de aguaceiros.
Depois de muito tempo, à custa de longas perquirições, encontrou a grade do escoadouro.
À frente da imprevista oportunidade de aventura benéfica, refletiu consigo:
- "Não será melhor pesquisar a vida e conhecer outros rumos?"
Optou pela mudança.
Apesar de macérrimo, pela abstenção completa de qualquer conforto, perdeu várias escamas, com grande sofrimento, a fim de atravessar a passagem estreitíssima.
Pronunciando votos renovadores, avançou, otimista, pelo rego d'água, encantado com as novas paisagens, ricas de flores e sol que o defrontavam, e seguiu, embriagado de esperança...
Em breve, alcançou grande rio e fez inúmeros conhecimentos.
Encontrou peixes de muitas famílias diferentes, que com ele simpatizaram, instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe mais fácil roteiro.
Embevecido, contemplou nas margens homens e animais, embarcações e pontes, palácios e veículos, cabanas e arvoredo.
Habituado com o pouco, vivia com extrema simplicidade, jamais perdendo a leveza e a agilidade naturais.
Conseguiu, desse modo, atingir o oceano, ébrio de novidade e sedento de estudo.
De início, porém, fascinado pela paixão de observar, aproximou-se de uma baleia para quem toda a água do lago em que vivera não seria mais que diminuta ração; impressionado com o espetáculo, abeirou-se dela mais que devia e foi tragado com os elementos que lhe constituíam a primeira refeição diária.
Em apuros, o peixinho aflito orou ao Deus dos Peixes, rogando proteção no bojo do monstro e, não obstante as trevas em que pedia salvamento, sua prece foi ouvida, porque o valente cetáceo começou a soluçar e vomitou, restituindo-o às correntes marinhas.
O pequeno viajante, agradecido e feliz, procurou companhias simpáticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações.
Plenamente transformado em suas concepções do mundo, passou a reparar as infinitas riquezas da vida. Encontrou plantas luminosas, animais estranhos, estrelas móveis e flores diferentes no seio das águas. Sobretudo, descobriu a existência de muitos peixinhos, estudiosos e delgados tanto quanto ele, junto dos quais se sentia maravilhosamente feliz.
Vivia, agora, sorridente e calmo, no Palácio de Coral que elegera, com centenas de amigos, para residência ditosa, quando, ao se referir ao seu começo laborioso, veio a saber que somente no mar as criaturas aquáticas dispunham de mais sólida garantia, de vez que, quando o estio se fizesse mais arrasador, as águas de outra altitude, continuariam a correr para o oceano.
O peixinho pensou, pensou... e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera na infância, deliberou consagrar-se à obra do progresso e salvação deles.
Não seria justo regressar e anunciar-lhes a verdade? não seria nobre ampará-los, prestando-lhes a tempo valiosas informações?
Não hesitou.
Fortalecido pela generosidade de irmãos benfeitores que com ele viviam no Palácio de Coral, empreendeu comprida viagem de volta.
Tornou ao rio, do rio dirigiu-se aos regatos e dos regatos se encaminhou para os canaizinhos que o conduziram ao primitivo lar.
Esbelto e satisfeito como sempre, pela vida de estudo e serviço a que se devotava, varou a grade e procurou, ansiosamente, os velhos companheiros. Estimulado pela proeza de amor que efetuava, supôs que o seu regresso causasse surpresa e entusiasmo gerais. Certo, a coletividade inteira lhe celebraria o feito, mas depressa verificou que ninguém se mexia.
Todos os peixes continuavam pesados e ociosos, repimpados nos mesmos ninhos lodacentos, protegidos por flores de lotus, de onde saíam apenas para disputar larvas, moscas ou minhocas desprezíveis.
Gritou que voltara a casa, mas não houve quem lhe prestasse atenção, porquanto ninguém, ali, havia dado pela ausência dele.
Ridicularizado, procurou, então, o rei de guelras enormes e comunicou-lhe a reveladora aventura. O soberano, algo entorpecido pela mania de grandeza, reuniu o povo e permitiu que o mensageiro se explicasse.
O benfeitor desprezado, valendo-se do ensejo, esclareceu, com ênfase, que havia outro mundo líquido, glorioso e sem fim. Aquele poço era uma insignificância que podia desaparecer, de momento para outro. Além do escoadouro próximo desdobravam-se outra vida e outra experiência. Lá fora, corriam regatos ornados de flores, rios caudalosos repletos de seres diferentes e, por fim, o mar, onde a vida aparece cada vez mais rica e mais surpreendente. Descreveu o serviço de tainhas e salmões, de trutas e esqualos. Deu notícias do peixe-lua, do peixe-coelho e do galo-do-mar. Contou que vira o céu repleto de astros sublimes e que descobrira árvores gigantescas, barcos imensos, cidades praieiras, monstros temíveis, jardins submersos, estrelas do oceanos e ofereceu-se para conduzi-los ao Palácio de Coral, onde viveriam todos, prósperos e tranqüilos. Finalmente os informou de que semelhante felicidade, porém, tinha igualmente seu preço. Deveriam todos emagrecer convenientemente, abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme nas locas escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário à venturosa jornada.
Antes que terminou, gargalhadas estridentes coroaram-lhe a preleção.
Ninguém acreditou nele.
Alguns oradores tomaram a palavra e afirmaram, solenes, que o peixinho vermelho delirava, que outra vida além do poço era francamente impossível, que aquelas história de riachos, rios e oceanos era mera fantasia de cérebro demente e alguns chegaram a declarar que falavam em nome do Deus dos Peixes, que trazia os olhos voltados para eles unicamente.
O soberano da comunidade, para melhor ironizar o peixinho, dirigiu-se em companhia dele até a grade de escoamento e, tentando, de longe, a travessia, exclamou, borbulhante:
- "Não vês que não cabe aqui nem uma só de minhas barbatanas? Grande tolo! vai-te daqui! não nos perturbes o bem-estar... Nosso lago é o centro do Universo... Ninguém possui vida igual à nossa!..."
Expulso a golpes de sarcasmo, o peixinho realizou a viagem de retorno e instalou-se, em definitivo, no Palácio de Coral, aguardando o tempo.
Depois de alguns anos, apareceu pavorosa e devastadora seca.
As águas desceram de nível. E o poço onde viviam os peixes pachorrentos e vaidosos esvaziou-se, compelindo a comunidade inteira a perecer, atolada na lama...
Alimentado por diminuto canal de pedra, escoava suas águas, do outro lado, através de grade muito estreita.
Nesse reduto acolhedor, vivia toda uma comunidade de peixes, a se refestelarem, nédios e satisfeitos, em complicadas locas, frescas e sombrias. Elegeram um dos concidadãos de barbatanas para os encargos de rei, e ali viviam, plenamente despreocupados, entre a gula e a preguiça.
Junto deles, porém, havia um peixinho vermelho, menosprezado de todos.
Não conseguia pescar a mais leve larva, nem refugiar-se nos nichos barrentos. Os outros, vorazes e gordalhudos, arrebatavam para si todas as formas larvárias e ocupavam, displicentes, todos os lugares consagrados ao descanso.
O peixinho vermelho que nadasse e sofresse.
Por isso mesmo era visto, em correria constante, perseguido pela canícula ou atormentado de fome.
Não encontrando pouso no vastíssimo domicílio, o pobrezinho não dispunha de tempo para muito lazer e começou a estudar com bastante interesse.
Fez o inventário de todos os ladrilhos que enfeitavam as bordas do poço, arrolou todos os buracos nele existentes e sabia, com precisão, onde se reuniria maior massa de lama por ocasião de aguaceiros.
Depois de muito tempo, à custa de longas perquirições, encontrou a grade do escoadouro.
À frente da imprevista oportunidade de aventura benéfica, refletiu consigo:
- "Não será melhor pesquisar a vida e conhecer outros rumos?"
Optou pela mudança.
Apesar de macérrimo, pela abstenção completa de qualquer conforto, perdeu várias escamas, com grande sofrimento, a fim de atravessar a passagem estreitíssima.
Pronunciando votos renovadores, avançou, otimista, pelo rego d'água, encantado com as novas paisagens, ricas de flores e sol que o defrontavam, e seguiu, embriagado de esperança...
Em breve, alcançou grande rio e fez inúmeros conhecimentos.
Encontrou peixes de muitas famílias diferentes, que com ele simpatizaram, instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe mais fácil roteiro.
Embevecido, contemplou nas margens homens e animais, embarcações e pontes, palácios e veículos, cabanas e arvoredo.
Habituado com o pouco, vivia com extrema simplicidade, jamais perdendo a leveza e a agilidade naturais.
Conseguiu, desse modo, atingir o oceano, ébrio de novidade e sedento de estudo.
De início, porém, fascinado pela paixão de observar, aproximou-se de uma baleia para quem toda a água do lago em que vivera não seria mais que diminuta ração; impressionado com o espetáculo, abeirou-se dela mais que devia e foi tragado com os elementos que lhe constituíam a primeira refeição diária.
Em apuros, o peixinho aflito orou ao Deus dos Peixes, rogando proteção no bojo do monstro e, não obstante as trevas em que pedia salvamento, sua prece foi ouvida, porque o valente cetáceo começou a soluçar e vomitou, restituindo-o às correntes marinhas.
O pequeno viajante, agradecido e feliz, procurou companhias simpáticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações.
Plenamente transformado em suas concepções do mundo, passou a reparar as infinitas riquezas da vida. Encontrou plantas luminosas, animais estranhos, estrelas móveis e flores diferentes no seio das águas. Sobretudo, descobriu a existência de muitos peixinhos, estudiosos e delgados tanto quanto ele, junto dos quais se sentia maravilhosamente feliz.
Vivia, agora, sorridente e calmo, no Palácio de Coral que elegera, com centenas de amigos, para residência ditosa, quando, ao se referir ao seu começo laborioso, veio a saber que somente no mar as criaturas aquáticas dispunham de mais sólida garantia, de vez que, quando o estio se fizesse mais arrasador, as águas de outra altitude, continuariam a correr para o oceano.
O peixinho pensou, pensou... e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera na infância, deliberou consagrar-se à obra do progresso e salvação deles.
Não seria justo regressar e anunciar-lhes a verdade? não seria nobre ampará-los, prestando-lhes a tempo valiosas informações?
Não hesitou.
Fortalecido pela generosidade de irmãos benfeitores que com ele viviam no Palácio de Coral, empreendeu comprida viagem de volta.
Tornou ao rio, do rio dirigiu-se aos regatos e dos regatos se encaminhou para os canaizinhos que o conduziram ao primitivo lar.
Esbelto e satisfeito como sempre, pela vida de estudo e serviço a que se devotava, varou a grade e procurou, ansiosamente, os velhos companheiros. Estimulado pela proeza de amor que efetuava, supôs que o seu regresso causasse surpresa e entusiasmo gerais. Certo, a coletividade inteira lhe celebraria o feito, mas depressa verificou que ninguém se mexia.
Todos os peixes continuavam pesados e ociosos, repimpados nos mesmos ninhos lodacentos, protegidos por flores de lotus, de onde saíam apenas para disputar larvas, moscas ou minhocas desprezíveis.
Gritou que voltara a casa, mas não houve quem lhe prestasse atenção, porquanto ninguém, ali, havia dado pela ausência dele.
Ridicularizado, procurou, então, o rei de guelras enormes e comunicou-lhe a reveladora aventura. O soberano, algo entorpecido pela mania de grandeza, reuniu o povo e permitiu que o mensageiro se explicasse.
O benfeitor desprezado, valendo-se do ensejo, esclareceu, com ênfase, que havia outro mundo líquido, glorioso e sem fim. Aquele poço era uma insignificância que podia desaparecer, de momento para outro. Além do escoadouro próximo desdobravam-se outra vida e outra experiência. Lá fora, corriam regatos ornados de flores, rios caudalosos repletos de seres diferentes e, por fim, o mar, onde a vida aparece cada vez mais rica e mais surpreendente. Descreveu o serviço de tainhas e salmões, de trutas e esqualos. Deu notícias do peixe-lua, do peixe-coelho e do galo-do-mar. Contou que vira o céu repleto de astros sublimes e que descobrira árvores gigantescas, barcos imensos, cidades praieiras, monstros temíveis, jardins submersos, estrelas do oceanos e ofereceu-se para conduzi-los ao Palácio de Coral, onde viveriam todos, prósperos e tranqüilos. Finalmente os informou de que semelhante felicidade, porém, tinha igualmente seu preço. Deveriam todos emagrecer convenientemente, abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme nas locas escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário à venturosa jornada.
Antes que terminou, gargalhadas estridentes coroaram-lhe a preleção.
Ninguém acreditou nele.
Alguns oradores tomaram a palavra e afirmaram, solenes, que o peixinho vermelho delirava, que outra vida além do poço era francamente impossível, que aquelas história de riachos, rios e oceanos era mera fantasia de cérebro demente e alguns chegaram a declarar que falavam em nome do Deus dos Peixes, que trazia os olhos voltados para eles unicamente.
O soberano da comunidade, para melhor ironizar o peixinho, dirigiu-se em companhia dele até a grade de escoamento e, tentando, de longe, a travessia, exclamou, borbulhante:
- "Não vês que não cabe aqui nem uma só de minhas barbatanas? Grande tolo! vai-te daqui! não nos perturbes o bem-estar... Nosso lago é o centro do Universo... Ninguém possui vida igual à nossa!..."
Expulso a golpes de sarcasmo, o peixinho realizou a viagem de retorno e instalou-se, em definitivo, no Palácio de Coral, aguardando o tempo.
Depois de alguns anos, apareceu pavorosa e devastadora seca.
As águas desceram de nível. E o poço onde viviam os peixes pachorrentos e vaidosos esvaziou-se, compelindo a comunidade inteira a perecer, atolada na lama...
____________________________________
Retirado
do prefácio do livro "LIBERTAÇÃO", de André Luiz
Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Edição FEB
Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Edição FEB
As lágrimas dos Orixás
***
Em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pelos
do corpo. Realmente o Sol tinha se escondido nesse dia, e a Lua,
tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos
como fios de prata, a morada dos Orixás.
Nessa
estranha noite, Ogum, o Orixá das “guerras”, saiu do alto ponto onde
guarda todos os caminhos e dirigiu – se ao mar. Lá chegando, as sereias
começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram – se. Todos adoravam
Ogum, ele era tão forte e corajoso.
Yemanjá que tem nele um filho
querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe “coruja” quando revê um
filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada
dentro do coração:
-
Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais
vezes sua mãe, não é mesmo? _ ralhou Yemanjá, com aquele tom típico de
contrariedade.
- Desculpe, sabe, ando meio ocupado_ Respondeu um triste Ogum.
- Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.
-
É, vim até aqui para “desabafar” com você “mãezinha”. Estou cansado!
Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome.
Estou cansado com o que eles fazem com a “espada da Lei” que julgam
carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das
“supostas” demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um
deles… Estou cansado…
Ogum
retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e
de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que
carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos
de Umbanda.
Chorava
por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero,
era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um
Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria
Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé. Não!
Ogum amava a humanidade, amava a Vida.
Mas
infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas
não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a
transformavam em um instrumento de guerra. Não vinham nele a potência e a
força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de
trevas na alma de todos. Não vinham em sua lança, a direção que aponta
para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.
Não!
Infelizmente ele era entendido como o “Orixá da Guerra”, um homem
impiedoso que utiliza – se de sua espada para resolver qualquer
situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer
dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas
entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão,
sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas
realizaram “quebras e cortes” de demandas, muitas das quais nem mesmo
existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio
estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso torna – se
uma guerra de vaidade, um show “pirotécnico” de forças ocultas. Muita
“espada”, muito “tridente”, muitas “armas”, pouco coração, pensamento
elevado e crescimento espiritual.
Isso magoava Ogum. Como magoava:
Isso magoava Ogum. Como magoava:
-
Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que a Umbanda é pura e
simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o
correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por
que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita
do amor, insistindo em empunhá – la com a mão esquerda da soberbia, do
poder transitório, da ira, da ilusão, transformando – na em apenas mais
uma espada semeadora de tormentos e destruição…
Então,
Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e
firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E
totalmente nu ficou frente à Yemanjá. Cravou sua espada no solo. Não
queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado…
Logo
um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu
apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não agüentava
mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não
entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar
contra Ela. Magoava – se por sua alfange da morte, que é o princípio que
a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser
tão temida e mal compreendida pelos homens.
Ele
também deixou sua alfange aos pés de Yemanjá, e retirou seu manto
escuro como a noite. Logo via – se o mais lindo dos Orixás, aquele que
usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor
e paz que irradia – se de todo seu ser. A luz que cura, a luz que
pacifica, aquela que recolhe todas as almas que perderam – se na senda
do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem disso…
Mas
o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar
aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha
noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo,
começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao
pé de Yemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.
Faziam
isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos
pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios.
Yansã queria que as
pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que
espalha as sementes de luz do seu amor.
Oxossi queria ser reverenciado
como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas
da ignorância.
Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém
lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas
daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.
Um a um, todos foram despindo – se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.
Um a um, todos foram despindo – se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.
Yemanjá,
totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma
irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá
das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a
reunião, acompanhado de Pomba Gira, sua companheira eterna de jornada.
Mas
os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam – se.
Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham
na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito.
Eles nunca perdiam o senso de humor!
E
os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa
de Yemanjá. Despiram – se de tudo. Exu e Pomba Gira, sem dúvida, eram
os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os absurdos
cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o
próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando – o a
figura do Diabo:
-
Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! _ Exu chorava,
mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.
Yemanjá
estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas
nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:
- Espere!_ pensou Yemanjá!_ Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.
E
logo Yemanjá colocou – se em oração, pedindo a presença daquele que é o
Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou – se na frente de todos. Trazia
seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado
da espada de Ogum. Também despiu – se de sua roupa sagrada, pra igualar
– se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:
-
Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz
para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem,
aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas
verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e
bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também
está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros
trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses
verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os
absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de “apenas”
prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do
coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das
dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um
trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões
no astral, construindo verdadeiras “bases de luz” na crosta, onde a
espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses que
realmente nos compreendem e buscam – nos dentro do coração espiritual,
pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos
de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas
costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos.
Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que
honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de
Olorum brilhar e sorrir…
Quando
Oxalá calou – se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas
esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam,
grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum
tempo, muitos outros juntariam – se nesse ideal. E aquilo alegrou – os
tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de
luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e
derramaram – se em amor e compaixão pela humanidade.
Em
Aruanda, os Caboclos, Pretos – Velhos e Crianças, o mesmo fizeram.
Largaram tudo, também despiram – se e manifestaram sua essência de luz,
sua humildade e sabedoria comungando a bênção dos Orixás.
Na
Terra, Baianos, Marinheiros, Boiadeiros, Ciganos e todos os povos de
Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e
abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem –
aventuranças incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas
sorriam e abraçavam – se. O alto os abençoava…
Mas,
uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando
assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e
guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os
Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas
almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta
tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pomba Giras, naquele dia
foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força
para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.
***
Lendas dos Orixás
Um babalaô me contou:
"Antigamente, os orixás eram homens.
Homens que se tornaram orixás por causa de seus poderes.
Homens que se tornaram orixás por causa de sua sabedoria.
Eles eram respeitados por causa de sua força,
Eles eram venerados por causa de suas virtudes.
Nós adoramos sua memória e os altos feitos que realizaram.
Foi assim que estes homens tornaram-se orixás.
Os homens eram numerosos sobre a Terra.
Antigamente, como hoje,
Muitos deles não eram valentes nem sábios.
A memória destes não se perpetuou
Eles foram completamente esquecidos;
Não se tornaram orixás.
Em cada vila, um culto se estabeleceu
Sobre a lembrança de um ancestral de prestígio
E lendas foram transmitidas de geração em geração para
render-lhes homenagem".
Lendas Africanas dos Orixás
sábado, 1 de fevereiro de 2014
O primeiro passo...
"Uma história é capaz de iluminar nossa relação com os outros, de fortalecer nossa compaixão, de transformar o olhar com que contemplamos os nossos semelhantes, confirmando a crença de que "estamos todos juntos na tarefa de viver..."
Ruth Stotter
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